terça-feira, 12 de outubro de 2010

Educadores Especiais

Educadores como você...

Carla anda de cadeira de rodas. George é cego. Rodrigo e Patrícia são surdos. Débora tem síndrome de Down. Além de possuírem algum tipo de deficiência, eles têm mais coisas em comum: cresceram numa época em que inclusão ainda era uma palavra que não significava a total integração à escola e à sociedade de pessoas com necessidades educacionais especiais. Mesmo assim, os cinco lutaram contra preconceitos, conquistaram espaço no mercado de trabalho e hoje são EDUCADORES COMO VOCÊ...

Voltar a sonhar
Carla Costa Kind da Silva, professora
A dor que a professora Carla Costa Kind da Silva sentiu nas costas numa noite de1994 foi tão intensa que ela desmaiou. Quando acordou, no centro de tratamento intensivo de um hospital do Rio de Janeiro, ela não mexia nem o pescoço. Segundo os médicos, uma inflamação na medula tinha deixado Carla paralisada para sempre. "Senti que era o fim de meus sonhos." Aos 23 anos, Carla estava noiva havia três meses, tinha mais um ano para se formar em Ciências Sociais e planejava fazer mestrado... Sem perspectiva de melhora, ela propôs o fim do noivado, mas o bombeiro Sérgio Sousa da Silva não quis nem ouvir seus argumentos e tomou uma decisão radical. Mudou-se para a casa dela e começou a estudar acupuntura, shiatsu, ioga, fitoterapia e fisioterapia para ajudá-la no tratamento. Tão misteriosa quanto o aparecimento da doença tem sido sua recuperação. Contra todas as previsões, em seis meses ela movimentava os braços e hoje consegue ficar em pé sobre uma das pernas. Aceitar as limitações não foi fácil. No início, ela não queria sair de casa por vergonha da cadeira de rodas, mas a família decidiu "arrastá-la". Sábia decisão. Dali em diante, sua postura mudou. Carla retomou os estudos e lutou para voltar a lecionar. Há seis anos, casou-se com Sérgio - de véu e grinalda - e teve o prazer de entrar na igreja andando, amparada pelos pais. Há dois anos, deu à luz André Luiz, deixando muita gente espantada. Assim como cuida do filho, Carla dá conta da turma de Educação Infantil do CIEP Yuri Gagarin, onde nem tudo está adaptado à sua condição. A rampa de entrada é íngreme e perigosa, mas na sala há espaço para circular com a cadeira de rodas. Hoje, aos 35 anos, ela faz valer seus direitos, exerce com prazer a profissão que escolheu e encara a vida com alegria.

Pela luz dos olhos dele
George Gomes de Oliveira, estudante
Ao visitar uma escola, no final de 2004, o então estudante de História George Gomes de Oliveira ouviu de um aluno:
- Você não enxerga nada?
- Nada, nadinha...
- E vai dar aula pra gente no ano que vem?
- Pode ser. Por quê?
- Vixe! Já pensou se você entrar na sala e todos nós sairmos de mansinho?
- Eu não enxergo um palmo à frente do nariz. Aliás, nem o nariz eu enxergo. Mas sei dar aula direitinho!
esse mesmo bom humor, o professor Georges e apresentou no ano passado às 12 turmas da EE Francisco de Paula Antunes, em Brasília de Minas, a 450 quilômetros de Belo Horizonte. Ele perdeu a visão do olho direito aos 6 anos, ao cair de um cavalo. Aos 12, a retina esquerda também o deixou na mão. Desanimado, parou de estudar. O garoto voltou à escola só aos 19 anos, quando fez supletivo e aprendeu braile. Seu sonho era fazer Processamento de Dados. "Queria usar softwaresque obedecessem a comandos de voz." Aprovado na seleção, não pôde fazer o curso, pois a escola técnica não estava preparada para receber cegos. Que decepção! No Ensino Médio, conheceu um professor de História que, para driblar a gagueira, entrava na sala declamando a matéria. "Essa estratégia fantástica me fez pensar em lecionar." Um outro professor, de Física, sugeriu que ele gravasse as aulas. Um santo conselho. Hoje seu acervo tem mais de 350 fitas, incluídas as da faculdade. Passar no vestibular da Universidade Estadual de Montes Claros foi moleza. "Só percebemos que George era cego no quinto dia de aula", lembra Leandro Mendes, colega de graduação e de profissão. Professor conservador, em sua própria avaliação, George, 33 anos, decora o conteúdo por tópicos depois de ouvi-los nas fitas. Em classe, dita para uma aluna, que passa tudo no quadro - para onde ele aponta durante as explicações, como se estivesse destacando alguma informação. Só nos dias de prova Leandro vem ajudá-lo. "É para ver se ninguém está colando."

"Eu gosto de ensinar"
Patrícia Alessandra Luciano Campos e Rodrigo CésarBaltazar Campos
Patrícia Alessandra Luciano Campos, 31 anos, é pura tranqüilidade. O marido, Rodrigo César Baltazar Campos, 35, é agitado e grande contador de histórias. Os dois são surdos e ainda eram adolescentes quando se conheceram. Hoje vivem num espaçoso apartamento em Florianópolis com o filho, Lucas. O garoto, de 6 anos, é muito apegado aos pais, apesar de eles se comunicarem em uma língua diferente. Lucas ouve perfeitamente. Para que desenvolvesse a fala, contou com o estímulo dos avós e da babá e foi para a escola logo depois do primeiro aniversário. Ele ainda não conhece muito bem a Língua Brasileira de Sinais (libras), mas vai aprender. Afinal, a mãe é professora da matéria. "Foi ela quem me ensinou libras", recorda Rodrigo, que, quando garoto, enfrentou muitos problemas na escola. Língua de sinais, naquele tempo, nem pensar! A dificuldade em Língua Portuguesa o levou a ser reprovado várias vezes. Patrícia também enfrentou desafios. Os pais dela, assim como os de Rodrigo, queriam que Patrícia só fosse oralizada (aprendesse a falar). Ela até consegue falar um pouco e, quando não se faz entender, usa mímica, aponta ou escreve. Mas, rebelde como qualquer adolescente, aprendeu libras escondido. Em março, o casal se formou em Pedagogia e sabe bem o valor de uma escola preparada para lidar com as diferenças. Além da linguagem de sinais, Patrícia ensina Língua Portuguesa para os alunos surdos da Escola Básica Donícia Maria da Costa. Rodrigo trabalha na administração da empresa da família e começou este ano a dar aulas de Matemática na sala de apoio da mesma escola. "Meu maior orgulho foi ver uma aluna da 7a série tirar10 na prova. Ela só tinha notas vermelhas", conta. Na foto, Rodrigo diz com as mãos: "Eu gosto". E Patrícia, completa: "De ensinar".

Questão de estímulo
Débora Araújo Seabra de Moura
"Tenho síndrome de Down e não quero ser discriminada. Vim cursar o Magistério e vou até o fim." Assim Débora Araújo Seabra de Moura se apresentou aos colegas na EE Luís Antônio, em Natal. Apesar da atitude firme, enfrentou professores que a consideravam incapaz e colegas que abusavam de sua bondade. Débora escreveu uma carta para a diretora relatando o tratamento de que era vítima. Ao se formar, mandou convite para todos os antigos mestres. Os pais, a advogada Margarida e o psicanalista José Robério, comemoraram mais essa etapa de luta por espaços e estimulação que começou quando a filha nasceu. A equipe da Escola Doméstica - onde ela cursou parte do Ensino Fundamental - ofereceu classes para a jovem estagiar. "Queríamos ajudá-la... Que paternalismo! É ela quem nos ensina, e muito", diz a vice-diretora, Cristine Rosado. Débora, 25 anos, é professora auxiliar de uma turma com 27 crianças, de 3 e 4 anos. Trabalha como voluntária porque, se for registrada, perde o direito a pensão em caso de morte dos responsáveis (os pais lutam para mudar a lei). Débora faz o planejamento das aulas com a professora titular e, com uma orientadora pedagógica, em casa, pesquisa e traça metas individuais. Ela mantém um diário em que anota tudo o que acontece na escola. "Tenho um aluno agressivo. Se ele continuar assim, vai ficar sem amigos", escreveu no ano passado. Ela conversou com o menino e com os pais dele. No final do ano, o garoto havia mudado. "Fiquei emocionada quando ele me disse que eu era ótima professora."
Fonte: Revista Nova Escola: Inclusão Social e Profissional/ Educadores como você

13 comentários:

  1. Adorei parabéns estou colocando seu link em nosso blog, http://forumespecial.blogspot.com/p/contatos.html

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  2. Parabéns!estou encantada,curso o 3º ano em pedagogia,faço estágio na rede municipal e fico com o Bruno com síndrome de Down encontro muitas dificuldades por não ter nenhum preparo com relação a situação, penso seria mente em fazer um Pós na área.

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  3. Foi por causa do desejo de ajudar um garotinho com transtornos globais do desenvolvimento, há mais de dez anos, que entrei nesta área. É sempre bom se aperfeiçoar, enquanto profissional e enquanto ser humano. FELICIDADES!!!

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  4. Luciana A. Repache, Kelly Cristina N. Telles e Gabriela S. Carlstrom12 de abril de 2011 13:02

    Lendo esses depoimentos, nos deixam mais motivadas para trabalhar com pessoas com necessidades especiais, pois nos mostram, que, a pessoa tendo força de vontade, e sendo motivada, consegue realizar todos os seus desejos e realizações, independente da deficiência que possui.
    Somos professoras do ensino fundamental e estamos cursando pós-graduação em educação especial e queremos e estamos aprendendo como trabalhar e como lidar com crianças com necessidades especiais na sala de aula da melhor maneira possivel, para que não apenas "passem" na nossa sala de aula e sim aprendam e consigam.
    Nós queremos fazer a diferença na vida dessas crianças, pois, fazendo da educação especial o nosso magistério, teremos a certeza de que a cada dia o mundo estará melhor, pois, educando diferente, estaremos ajudando na construção de excelentes pessoas e profissionais que mudarão o mundo !

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  5. Prabéns pelas conquistas!!!

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  6. Simone Strassa Miranda18 de abril de 2011 06:49

    Fico encantada ao ler depoimentos como esses, principalmente o do professor George. Quantas barreiras vocês tiveram que enfrentar, não é verdade? Mas alémde tudo isso está a força de vontade de um grupo tão especial.
    Sou professora do ensino fundamental e no ano passado tivi em minha sala, uma aluna com baixa visõa. No inicio tudo foi muito difícil para mim, mas assim como vocês , não desisti. Inicieei , então um curso de pós-graduaçaõ em Educação Especial ( inclusão). Hoje, no final do curso , já me sinto um pouco mais preparada para trabalhar com a inclusõa.
    Quero poder fazer diferença na vida dessas crienças .
    Desejo á vocês muito sucesso e que realizem todos os seus sonhos como educadores.

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  7. Fernanda B. Amaral Coca e Paula R. Mantovani de Fáveri28 de abril de 2011 17:16

    Ao ler estes depoimentos, tivemos a certeza de que nossa luta pela Educação Especial nunca será em vão!
    Trabalhamos num Centro de Referência (CRAEE)em Artur Nogueira que atende cerca de 110 crianças incluídas nas escolas do nosso município. São alunos com diversas deficiências, transtornos, distúrbios ou dificuldade de aprendizagem e que precisam de acompanhamento multidisciplinar para potencializar suas possibilidades e garantir, além do acesso, a permanência e o sucesso na vida acadêmica.
    Somos totalmente apaixonadas pelo nosso trabalho; e, não há satisfação maior do que perceber progressos nas crianças que passam pelo centro. Ver seus olhinhos brilhando ao conseguir ler uma palavra é uma emoção inexplicável.
    Parabéns a todos vocês Educadores Especiais. Obrigada por dividirem conosco suas histórias de lutas, exemplos de vitórias; e, por renovar nossas esperanças, provando que SEMPRE é possível... Basta acreditar!

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  8. ANA VALÉRIA DE CASTRO ANGEALOSY30 de julho de 2011 16:03

    FIQUEI REALMENTE EMOCIONADA COM TODOS ESSES DEPOIMENTOS!ISSO E UM BELO EXEMPLO, PARA QUE DETERMINADAS PESSOAS QUE DIZEM: EU SOU NORMAL!SOU DEFICIENTE AUDITIVA JÁ TIVE E TENHO DIVERSAS PORTAS FECHADAS NA MINHA VIDA.MAS,CONTINUO LUTANDO!SABEM PORQUE??? PORQUE SOU UMA DEFICIENTE DIFERENTE.POIS,COMO TODAS AS PESSOAS DESTES DEPOIMENTOS EU NÃO DESISTO NUNCA.PARABENS !!!!

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  9. Elaine Castro, Leilah Santiago e Lucimara Vilas Boas17 de outubro de 2011 13:48

    Olá,
    Que relatos maravilhosos, esses depoimentos são fontes de inspiração e motivação para nós educadores, mas ao mesmo tempo deparamos com uma realidade, a ausência de educadores com deficiência. Como podemos lutar por uma inclusão se temos poucos exemplos dentro das escolas?
    Célia Amamos seu trabalho, seu blog é sabedoria e informação para nós, que essas histórias sejam impulso para tantas outras pessoas que desistiram de sonhar.

    Abraços e bênçãos

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  10. Gertrudes Aparecida Macedo mCarlini18 de outubro de 2011 17:38

    Rodrigo, George, Patrícia, Débora e Carla foram acolhidos,instigados a desenvolverem o seu potencial.Nem sempre a inclusão é possível, pois sabemos que a política educacional de inclusão é muito recente e as escolas estão dando passos importantes, no entanto as mudanças levam tempo para acontecer.
    Como educadoras é preciso estar consciente de que todos são capazes de aprender, que a deficiência de nossos alunos nos desafia a buscar uma forma eficiente de atingí-los.
    Como eternos aprendizes sabemos que nossas crianças tem direito a uma educação de qualidade e qualquer passo em direção a inclusão vale a pena.
    Amar, viver e ser feliz mesmo com as diferenças,pois as "diferenças" nunca diminuem, e sim, somam valores e multiplicam gestos de fraternidade e paz entre os homens.
    Diferença não significa desigualdade.
    O respeito às diferenças está acima de toda PEDAGOGIA.

    Abraço FRaterno!
    18/10/2011
    Gertrudes Ap. Macedo Carlini
    Maria elizabeth Pereira
    Clarice Boer

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  11. Oi pesquisando na net hoje, encontrei o blog, também sou uma educadora especial. Me formei em Pedagogia em julho de 2010, e estou atualmente como professora de sala multifucional numa escola estadual na cidade de Mossoró no RN. vim aqui dar parabéns a todos aqueles que conseguiram conquista a vitória dos sonhos profissional.

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  12. Acho muito bonito o trab desse blog.Vai uma dica de um video muito legal onde fala que todos deveriam passar necessidades q um cadeirante passa em algumas situacoes p entender certas dificuldades..
    abs

    http://www.temporadafora.com/vlog/e-se-tudo-fosse-dificil

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  13. Queridos amigos deste Blog: como é gratificante perceber o movimento de inclusão entre meus colegas de profissão e os estudantes universitários que ainda estão em formação!! "Que o mundo nos aguarde"... MUITA LUZ A TODOS!!! BEIJOS

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